Quando as portas rotativas do número 14 da Avenida da República abriram pela primeira vez, em julho de 1966, Lisboa não estava habituada a grandes ousadias na restauração. O conceito de snack-bar (café-restaurante) bem ao estilo americano era uma novidade absoluta, mas a prova da sua longevidade está dada, depois de 60 anos no ativo, de forma ininterrupta.
A conclusão mais imediata que podemos tirar daqui é que o snack-bar Galeto não é apenas um “sobrevivente” à gentrificação da capital… é uma instituição em si e tem uma história incrível que vais gostar de conhecer.
A aura modernista da sua arquitetura

Classificado como Loja com História desde 2016 pela Câmara Municipal de Lisboa, o snack-bar Galeto é um dos sítios em Lisboa que estão abertos para comer até mais tarde, revelando a todos os que o visitam um espaço que mantém intacta a sua aura modernista.
Mas o que faz com que uma casa destas resista a seis décadas de mudanças na cidade sem perder a sua identidade? Se não sabes a resposta a esta pergunta, é porque nunca lá entraste, porque assim que o fizeres vais perceber – de imediato – que entrar aqui é uma experiência que não passa despercebida a ninguém, especialmente quando entram nos icónicos ziguezagues dos seus balcões.
Pois é, esquece as tradicionais mesas dispostas; no snack-bar Galeto sentas-te ao balcão, e só isso é uma verdadeira “imagem de marca” deste restaurante. E sim, há uma razão pela qual os seus arquitetos, Bento d’Almeida e Victor Palla, o construíram desta forma: foi para maximizar o espaço, permitindo “abancar” 150 pessoas de forma bastante confortável, ao mesmo tempo que garantiam um atendimento direto e muito rápido (ainda hoje é assim; em poucos minutos tens o teu pedido à tua frente).
A ironia do prato que batizou o snack-bar Galeto

O que é um “galeto”? É um frango jovem, com cerca de um mês de vida. Caso não saibas, snack-bar Galeto, que arrancou pelas mãos de um grupo de seis sócios emigrantes retornados do Brasil, teve como ideia principal replicar em Lisboa o sucesso do “galeto” que é muito popular no Rio de Janeiro.
Mas o paladar alfacinha não estava “virado para aí”, não tendo convencido grande parte dos seus clientes na altura, pelo que foi outro prato, o “Bife à Galeto”, que nos conquistou. Sessenta anos depois, o mesmo corte do lombo com ovo estrelado, fiambre, pickles e batatas fritas, sem esquecer o inconfundível esparregado, continua a sair daquela cozinha que nem “pãezinhos quentes”.
O último refúgio da noite lisboeta

Já aqui abordámos que o snack-bar Galeto é uma espécie de ponto de encontro para notívagos, quando dá aquela fome a meio da noite, mas também é um dos sítios onde a malta se encontra depois de vir de um jogo da bola, especialmente quando as equipas do Benfica ou do Sporting jogam em casa.
Vais encontrar o Galeto aberto até às 03h30 da “matina”, a servir não só os seus emblemáticos bifes como outras iguarias tipicamente portuguesas, como pregos ou croquetes que, na nossa opinião, são dos melhores de Lisboa.
Esta tendência de abrir até mais tarde terá começado nos idos anos 80, quando políticos como Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa, atores, jornalistas e até estudantes universitários de instituições de ensino ali próximas (como o IST – Instituto Superior Técnico) ganharam o hábito de por aqui permanecer durante longos períodos de tempo, sempre em amena cavaqueira, misturando diferentes classes sociais num balcão partilhado por todos.
Um legado nas mãos da família

Seis décadas passaram e o Galeto está, orgulhosamente, nas mesmas mãos familiares onde sempre se “aninhou”, com Francisco Oliveira, o atual gerente e filho de António Oliveira (um dos sócios fundadores), a liderar os destinos desta casa.
Hoje, o desafio deste negócio, assim como de tantos outros que Lisboa já viu partir, é garantir a sua sustentabilidade e manter-se fiel às suas origens, sem “tocar” nas peças que fazem dele o que sempre foi, especialmente quando falamos do seu incrível balcão com bancos rotativos, que ainda hoje é uma espécie de bilhete de identidade deste icónico snack-bar.
Enquanto Lisboa Secreta, a melhor forma que temos de “preservar” estes lugares únicos é dando-os a conhecer; e a melhor forma de tu ajudares é ires até lá e veres com os teus próprios olhos se tudo o que escrevemos é verdade.
Informações úteis:
Morada: Avenida da República 14
Horários: todos os dias das 07h30 às 03h (encerra no dia 1 de maio)
Preço médio: 15€ – 30€ por pessoa
Não fiques a ver navios! Segue-nos no Facebook, no Instagram e agora também no WhatsApp!