Quando pensamos nos pontos mais altos em Lisboa, facilmente nos lembramos que vivemos na cidade das Sete Colinas, ou que podemos visitar alguns dos mais incríveis miradouros do mundo. Contudo, as habituais rotas de visita da cidade raramente nos levam até ao local que, em tempos, colocou Portugal no mapa da ciência mundial, ao Real Observatório Astronómico de Lisboa (ROAL), que fica ali bem “escondidinho” no pulmão verde da Tapada da Ajuda, muito longe das filas de turistas que visitam a nossa capital.
Mais do que um antigo edifício do século XIX, o Real Observatório Astronómico de Lisboa é uma cápsula do tempo, e visitar este espaço não é apenas ver telescópios; é também compreender a ambição científica de um país que ousava tocar em instrumentos que, literalmente, mediram o céu.

Projeto de afirmação nacional
Mandado construir por D. Pedro V, na década de 1850, o país decidiu que precisava de se afirmar como potência científica e nada melhor que a construção de um observatório astronómico que rivalizasse com os melhores da Europa.
Procedeu-se então à edificação daquele que hoje se chama de Real Observatório Astronómico de Lisboa, sendo que a escolha do alto da Tapada da Ajuda teve em conta o facto desta zona da cidade oferecer céus limpos (na altura) e uma garantia de estabilidade para os minuciosos equipamentos de precisão.
O resultado foi este edifício de arquitetura nobre, mas que terá sido pensado ao milímetro para aquilo a que se propunha: observar o firmamento com uma precisão milimétrica.
Classificado como Monumento Nacional de Interessa Público, foi desenhado pelo arquiteto francês Jean-Colson, que se terá baseado nos desenhos do Observatório de Pulkova, na Rússia, numa construção que aconteceu entre 1861 e 1878.

Visitar o Real Observatório Astronómico de Lisboa
Uma visita ao ROAL vai garantir-te muitos conhecimentos, mas deves fazê-lo por duas razões principais:
- a beleza interior do espaço, que embora bastante degradado em alguns sítios (tetos, espaço exterior, etc.);
- e os instrumentos de observação, muitos deles, cerca de 200, ainda nos seus locais originais e perfeitamente preservados.
Na Sala do Grande Equatorial, que é o “coração” deste observatório, mantém-se a “Grande Equatorial”, uma objetiva de 38cm de diâmetro e 7m de distância focal, aqui instalado em 1867.
Imponente e montada em ferro fundido e latão polido, é o maior atrativo desta área e permite-te apenas imaginar de que forma trabalhavam os astrónomos da altura, que manualmente operavam esta máquina para seguir o movimento estelar.
O ROAL foi construído com salas específicas (as Salas de Meridiano), que eram dedicadas a instrumentos de trânsito, e aparelhos como o Círculo Meridiano eram essenciais para medir com exatidão as posição das estrelas, ajudando a determinar, por exemplo, a hora legal, que todos os anos muda duas vezes (horário de verão e horário de inverno).
Durante décadas, foi daqui que saiu a “Hora Oficial” de Portugal.

Estes são apenas algumas das peças e instrumentos que vais encontrar lá dentro, mas o próprio edifício do ROAL é, em si, uma peça de ciência: as salas foram construídas para garantir o máximo de estabilidade, térmica e sísmica, as cúpulas rotativas, os pilares profundos que sustentam os telescópios (separados da estrutura principal do edifício) e as janelas de observação revelam que tudo foi construído com um propósito muito rigoroso.

É possível visitar? Em que estado se encontra?
Em respostas simples e rápidas: sim e degradado! O ROAL, atualmente, está integrado na Universidade de Lisboa, através do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, sendo que a sua visita é uma experiência radical quando comparada com os roteiros mais habituais a peças museológicas. Esta é uma oportunidade para:
- descobrires um local “secreto” e sentir o privilégio de estar num local histórico, ainda longe das multidões (não sabemos o que vai acontecer após publicarmos este artigo, modéstia à parte);
- viajares no tempo, para compreender a ciência numa era pré-digital, onde a mecânica de precisão, a ótica e a paciência humana eram as únicas ferramentas;
- contemplar a cidade, e desfrutar do silêncio e das vistas únicas que a Tapada da Ajuda oferece sobre Lisboa e sobre o nosso rio Tejo.
E degradado porque, na nossa mais recente visita, ficámos um pouco tristes com alguns elementos que aqui descrevemos como impróprios para um espaço que se diz de conhecimento, que conta parte da nossa História enquanto país vanguardista.
O nosso objetivo é de apenas alertar as entidades responsáveis para que se faça algo em prol deste lugar, que se invista em melhorias, tanto no seu interior como no exterior:
- A inexistência de qualquer sinalização da porta principal fez-nos andar às voltas para encontrar a entrada, pelo que chegámos um pouco mais tarde à visita guiada (últimas quartas-feiras de cada mês, entre as 15h e as 16h);
- A zona exterior está extremamente mal cuidada, com os canteiros a merecerem uma atenção redobrada; além do passeio ao redor do ROAL, bastante escorregadio em dias de chuva (que foi o nosso caso);
- No pórtico da entrada, ao olharmos para cima demos conta de um enorme buraco, porventura fruto de vários anos sem qualquer tipo de manutenção;
- Lá dentro, apenas na Sala do Grande Equatorial, demos conta de vários baldes e lonas impermeáveis, com a finalidade de protegerem as peças museológicas, em virtude dos buracos do telhado que deixam passar a água da chuva.
De salientar ainda que o pessoal, tanto a senhora que recebe os visitantes como o guia, são inexcedíveis no seu trabalho e, daí, merecerem, mais do que ninguém, esta nossa “chamada de atenção” a quem de direito.
Gostaríamos muito de lá voltar no futuro e ver a maioria – se não todos – destes problemas finalmente resolvidos.

Numa altura em que as experiências instantâneas estão na moda, o Real Observatório Astronómico de Lisboa oferece algo muito raro: uma pausa para apreciar a engenharia, a história e a dimensão do tempo, sendo que é, sem dúvida, um dos tesouros mais valiosos e menos conhecidos da capital portuguesa.
Morada: Tapada da Ajuda (entrada via Calçada da Tapada e depois a pé, numa subida de cerca de 15 minutos)
Horários: visitas orientadas à última quarta-feira do mês, das 15h às 16h (estacionamento no Parque do ISA), exceto aos feriados
Bilhetes: grátis, sem necessidade de inscrição
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