Há destinos que julgava conhecer de ginjeira até decidir olhar para eles com mais tempo. Foi o caso de Óbidos. Num destes fins de semana, decidi trocar a “confusão” da cidade por uma escapadinha até à histórica “Vila das Rainhas” e arredores.
E porque estava à procura da maior sensação de liberdade possível, nem escolhi um hotel convencional para pernoitar; explorei a área à procura de um sítio que me desse natureza e, ao mesmo tempo, conforto, tendo encontrado no Camping Huttopia Lagoa de Óbidos o refúgio ideal que acabou por ditar o ritmo daquilo que procurava: relaxar e abrandar do frenesim citadino.
Parti de Lisboa ao final do dia de uma sexta-feira, tendo chegado ao camping antes das 20h, o que me garantiu um check-in mais tranquilo e o primeiro contacto com a tenda completa que me iria albergar nos próximos dias: uma Trappeur Plus, que se afasta bastante do campismo tradicional, numa opção que oferece dois quartos, uma casa de banho privativa e uma cozinha equipada. Lá fora, no alpendre exterior, um grelhador e um fogão a gás piscavam o olho a futuros jantares de família, um luxo que, com muita pena minha, ficou por estrear.
É que o roteiro que me esperava para este fim de semana exigia mais tempo fora do que dentro deste incrível espaço no meio da natureza, ainda que dele tenha usufruído de tudo um pouco, como vais perceber já de seguida.
Dia 1: desconexão e a natureza junto à Lagoa de Óbidos

O complexo do Huttopia é enorme e camufla-se de forma inteligente no pinhal circundante. Com cerca de 69 tendas e diferentes acomodações, o espaço garante uma privacidade invejável.
Depois de descarregar as malas, o cansaço da viagem pedia uma solução rápida para o jantar. A resposta estava a poucos passos, na zona de restauração do parque, onde o próprio gestor do espaço confecionou uma pizza caseira irrepreensível.
Com o estômago reconfortado, o resto da noite foi dedicado a provar que a cidade nos enferruja os reflexos: perdi cinco jogos seguidos de ping-pong para o meu filho e não fomos além de um empate na petanca.

Entre visitas ao parque infantil e aos campos de desportos de areia, a noite terminou no alpendre da tenda, a ler um livro sob o céu estrelado e, como banda sonora, o mar a bater ao fundo.
Dia 2: muralhas, livros e gastronomia de excelência

O sábado começou com um pequeno-almoço simples no parque de campismo (o serviço ronda os 5,5€ a 10€ e inclui pão, croissant, manteigas, compotas, café e sumo). Estava pronto para “atacar” as muralhas da Vila de Óbidos.
Já todos pisámos a calçada da Rua Direita, mas fazer uma visita guiada muda a perspetiva. Desde 2015 que a UNESCO classificou Óbidos como Cidade Literária, e perceber como os livros injetaram nova vida nestas pedras centenárias é fascinante.

Destaco três paragens obrigatórias para lá das tradicionais lojas de artesanato, que tanto gostámos de conhecer (aproveita para falar com os artesãos locais, têm tanto para contar):
- Livraria da Adega (Espaço Ó)
- Fica num edifício magnificamente restaurado pela autarquia. Este espaço híbrido funciona como um “laboratório” alfarrabista de excelência, cruzando os livros com um bar de vinhos e petiscos. O conselho de amigo? Mete conversa com o livreiro Luís Gomes. A paixão com que fala de livros e da vila vale, por si só, a visita.

- Mercado Biológico de Óbidos
- Um ex-líbris curioso. Onde normalmente esperaríamos apenas produtos hortícolas, encontramos as bancas ladeadas por uma imensa coleção de livros antigos.

- Livraria de Santiago
- O ponto alto do roteiro literário fica situado no topo da Rua Direita. Esta livraria ocupa a Igreja de São Tiago (que deixou de ter culto religioso no final do século XX e chegou a estar degradada). O projeto, impulsionado pela equipa da lisboeta Ler Devagar, colocou estantes e escadarias onde antes havia bancos e altares. É visualmente impactante.

E porque em Óbidos pode acontecer de tudo ao virar de cada esquina, desta vez ditou a sorte que, ao cruzar o largo da Igreja de Santa Maria, o templo principal da vila onde, em 1441, o Rei D. Afonso V se casou com a sua prima D. Isabel, assistísse à saída de um casamento militar muito peculiar, cheio de pompa e circunstância, revelando Óbidos no seu melhor.
E porque passear abre o apetite, fui ao encontro dos clássicos incontornáveis. É regra não escrita: ninguém pode sair de dentro destas muralhas sem provar a autêntica ginja de Óbidos servida em copo de chocolate; escolhi a loja da incontornável Ginja da Mariquinhas para garantir o souvenir líquido perfeito.

Pelo caminho, fiz ainda uma paragem na Óbidos Chocolate House, só porque sou guloso, e por outra morada que captou de imediato a minha atenção, pela Comur, a famosa fábrica de conservas portuguesa, cujas latas coloridas e edições comemorativas forram as paredes de uma loja que parece saída de um cenário de cinema.
Quando a fome aperta… há muito por onde escolher!

O almoço já estava garantido no Ja!mon Ja!mon, um restaurante de tapas “colado” às muralhas. A oferta gastronómica de Óbidos pode fazer-te cair, por vezes, na armadilha para turistas, mas aqui a aposta é ganha.
Os clássicos Peixinhos da Horta (que pelo tamanho gigantesco deviam chamar-se Tubarões da Horta) abriram caminho para uns Camarões ao Guilho com um molho que exigiu reforço de pão quente e umas bochechas de porco que se desfaziam na boca.
De barriga cheia, a tarde pedia algum movimento para “abater” o almoço. De regresso ao Huttopia, aluguei uma bicicleta elétrica e desci pelo caminho interior do parque até à Lagoa de Óbidos (trajeto de apenas 5 minutos a pé) para explorar as margens da mesma, regressando a tempo de um mergulho na piscina do parque, rodeada de pinheiros e de um silêncio abismal.

Para fechar o dia, reservei mesa para jantar no restaurante Bica da Lagoa. E aqui faço uma pausa e uma declaração séria: como natural da Nazaré, cresci rodeado de peixe fresco e tradições marítimas, mas foi aqui que comi a melhor sopa de peixe da minha vida. É a especialidade da casa, espessa, rica e inesquecível. Segui com um tataki de atum com batatas fritas, que também estava muito bom.

Para quem preferir outros sabores, o menu vai desde as tradicionais enguias e petingas fritas com arroz de tomate aos pregos e pica-pau, entre outras delícias.
Dia 3: relax, adrenalina e regresso à nossa Lisboa

A manhã de domingo começou sem grandes pressas. Depois de aproveitar alguns espaços de relaxamento do Camping Hottupia, entre as cadeiras coloridas no pinhal onde aproveitámos para folhear um livro, ou a grande sala de atividades com mesa de matraquilhos, descemos até à lagoa para algo completamente novo: uma aula de kitesurf.
A Lagoa de Óbidos tem condições ímpares para desportos de vento, com águas lisas e ventos consistentes. A ideia seria entregar-me às mãos da experiente escola de kite Passaro Kite & Wing School, mas infelizmente ainda não foi desta que experimentei esta atividade, que muitos dizem ser das mais prazerosas ao ar livre.
Tive de imaginar o que seria a sensação de deixar o vento puxar-me para ver, de outra perspetiva, o extenso areal onde muitas famílias do Oeste passam os seus verões.

Feito o check-out, com um agradecimento muito especial a toda a equipa do Camping Huttopia Lagoa de Óbidos, fiz-me à estrada para um almoço na Nazaré, que fechou o círculo desta rota pelo litoral-oeste.
Mas, com Peniche, Lourinhã e Caldas da Rainha a dois passos de distância, o difícil nesta zona não é arranjar o que fazer; é arranjar tempo para ver tudo. Fica, por isso, o pretexto perfeito para regressar.
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