Manuel Loureiro: o amola-tesouras do Bairro Alto - Lisboa Secreta
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Manuel Loureiro: o amola-tesouras do Bairro Alto

By Nelson Rodrigues Setembro 3, 2020

Sempre que ouvem a flauta ao longe, já sabem quem é: o Manuel, amola-tesouras, pois claro! De língua tão afiada quanto as facas que entrega, está na profissão desde os 15 anos, e não se imagina a fazer outra coisa.

Vive na margem Sul, mas vem quase todos os dias para a capital, onde já tem clientes certos. Nós encontrámo-lo no Bairro Alto e, enquanto bebia uma imperial e afiava uma faca, foi desfiando histórias e memórias que guarda desta vida.

Lisboa Secreta (LS): Há quantos anos afia as facas e as tesouras do Bairro Alto?
Manuel Loureiro (ML):
Ui! Já nem me lembro bem. Há anos! Já faço vida disto desde os meus 15, há quase 45 anos. Mas aqui, venho talvez há uns 25 ou mais.

LS: O bairro mudou muito desde essa altura?
ML: Muito, claro. Antes, quem morava aqui eram mesmo as donas das casas. Agora é só “camones”. Aos quatro e cinco no mesmo apartamento.

LS: E o seu trabalho, também mudou muito? O que é que lhe pedem para fazer agora?
ML: Antes tinha muito mais trabalho, até porque também arranjava guarda-chuvas e havia mais tesouras. Agora ainda tenho dois ou três alfaiates, mas é praticamente só facas.

LS: Já reparei que gosta de ir bebendo uma imperial enquanto trabalha…
ML: Sabes porquê? Os pistons começam a ficar sem óleo e a cerveja ajuda a olear.

LS: Cada vez há menos amoladores em Lisboa…
ML: Que eu conheça, nesta região de Lisboa/Almada só há três ou quatro. Eu, o meu irmão e mais dois amigos.

LS: Qual é o segredo de um bom amolador?
ML: É saber amolar. Por exemplo, saber fazer uma meia cana, ou seja, desbastar a faca ou a tesoura.

Foto: Nelson Jerónimo Rodrigues

LS: Quanto é que cobra por amolar uma faca?
ML: Costuma ser 2€/2,5€, mas aos fregueses certos faço sempre um desconto. E às vezes também me oferecem o almoço. Uma mão lava a outra.

LS: Lembra-se de ter passado por algum episódio mais caricato?
ML:
Vou contar uma história verdadeira. Uma vez amolei uma faca a um cigano que, logo a seguir, utilizou-a para cortar a cara de outro. Por causa da droga, veja lá. Ele disse-me: amola-me aí a faca, Manel. Eu amolei e cortou logo a cara ao homem! Verídico. Isto aconteceu no Bairro do Pica-Pau Amarelo, na margem Sul.

LS: O Bairro Alto está cheio de turistas. O que é que lhe dizem quando o vêm trabalhar?

ML: Por dia, tiram-me umas mil fotos. Eu já meti um papel a dizer “1 euro por cada foto”, mas eles não pagam. Era bom que pagassem, era! Então, quando eu vou para Belém, os “camones” não param de tirar fotografias.

LS: Além do Bairro Alto e Belém, também passa por outos bairros? Onde é que prefere trabalhar?
ML: Corro a cidade toda: Bairro Alto, Madragoa, Mouraria, Alcântara… Amanhã, por exemplo, vou para o Mercado do Peixe, na Calçada da Ajuda, amolar as facas das peixeiras. Prefiro trabalhar nos bairros históricos, onde sou mais conhecido e tenho mais fregueses. Por exemplo, aqui no Bairro Alto, podem passar 50 amoladores, mas só me dão as facas a mim.

LS: Imagina-se a ter esta profissão para sempre?
ML: Claro. Quem manda aqui sou eu. Sou patrão de mim proprio. E enquanto outras pessoas vão para o ginásio e têm de pagar, a mim ainda me pagam para eu fazer a minha preparação física, que é girar a roda da bicicleta.

Foto: Nelson Jerónimo Rodrigues

Foto de capa: Nelson Jerónimo Rodrigues