A história do Fado, um símbolo unicamente português - Lisboa Secreta
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Arte & Cultura

A história do Fado, um símbolo unicamente português

By Carolina Bessa Abril 15, 2020

Mais do que um estilo musical, o Fado é uma forma de viver e sentir.

Todos os portugueses sentem o Fado. É tipicamente nosso. Talvez nem sempre consigamos explicá-lo, porque é algo inato, que nasce connosco. Mas sabemos sempre quando o sentimos. Tal como a saudade. São patrimónios de Portugal, o Fado e a saudade, que andam lado a lado. 

O Fado, para um português, é mais do que música. Por isso é que é tão emocionante e arrepiante relembrar Amália a cantar ou ouvir Mariza, nos dias de hoje. Porque sentimos na pele cada palavra, cada nota da guitarra, cada som. 

O Fado é património da humanidade e uma herança de todos. E hoje, para homenagear o Fado, contamos a sua história.

O que é o fado

Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, “fado” refere-se a

1. Força superior que se crê controlar todos os acontecimentos.
2. Aquilo que tem de acontecerindependentemente da vontade humana.

Na entrada do dicionário também se acrescenta uma terceira definição, relacionada com a música:

Canção popular portuguesageralmente interpretada por um vocalista (fadista), acompanhado por guitarra portuguesa e por guitarra clássica

O melhor do Fado, enquanto estilo musical, é o facto de não contradizer qualquer uma das outras definições. O Fado, o nosso Fado, é tudo isto e mais. 

A origem do Fado

Surgiu em contexto popular na Lisboa oitocentista, quando, de forma espontânea e nas mais diversas ocasiões e lugares, se começava a cantar. Os temas eram essencialmente do quotidiano, de emergência urbana. O fado surgiu, então, nos seus primórdios, associado a contextos sociais.

Desde essa altura, o Fado começou a ganhar expressão nas mais variadas festas populares de Lisboa e rapidamente chegou ao teatro, através das peças de Revista. No século XIX, estabelece-se oficialmente a forma poética “décima” e a guitarra começa a marcar a sua posição no acompanhamento do fado cantado.

Já mais consolidado e presença comum nas festas sociais, inicia-se, no século XX, uma maior divulgação do Fado e a inclusão deste estilo em mais programações culturais. Já presença habitual no teatro, começam a surgir, também, companhias nacionais de fadistas, o que possibilitou a promoção de mais e maiores espetáculos.

Nesta altura, também as rádios tiveram um papel fundamental na difusão desta música.

flickr.com/Howard Gadsby

O Fado na altura da censura em 1927

Tal como todas as áreas artísticas, também o Fado sofreu mutações da sua forma original aquando da censura, depois do golpe de maio de 1926. Não apenas as letras podiam ser censuradas, mas também a apresentação dos intérpretes ou os espaços performativos estavam sujeitos a novas regras.

O Fado, que até então era criado essencialmente, de improviso, passou, nesta altura, a ter uma rede de intérpretes, letristas, compositores e instrumentistas dedicada e que actuavam em diferentes espaços para um público cada vez mais alargado.

À medida que o tempo foi passando, começou a consolidar-se a tendência de ouvir fado nos locais específicos para o efeito, “as casas de fado”. Estas começaram a aparecer com mais evidência em Lisboa, no Bairro alto, a partir dos anos 30.

Os fadistas, que nunca abandonaram o improviso por completo, foram começando a ter interesse em cantar sobre coisas típicas e é nesta altura que o Fado se começa a tornar mais próximo do que hoje conhecemos, genuíno e pitoresco.

O Fado e as artes

Já aqui falamos da relação do Fado com a rádio e o teatro e claro que também o cinema não ficou indiferente a este estilo musical. Muitos foram os filmes que retrataram o Fado no grande ecrã até à década de 70, entre os quais, por exemplo, “O Fado, História de uma Cantadeira”, protagonizado por Amália, ou “O Miúdo da Bica”.

Esta presença na rádio, teatro e cinema fez com que o Fado ultrapassasse barreiras geográficas e se tornasse, cada vez mais, um símbolo português.

Amália Rodrigues

Por volta dos anos 50, o Fado cruza-se com aquela que viria ser um dos maiores símbolos de Portugal: Amália Rodrigues.

A fadista teve um importante papel na internacionalização do fado e na sua consolidação como forma de arte. O Fado de Amália Rodrigues não conhecia fronteiras algumas, de língua ou culturais.

Desde que apareceu e se tornou fadista, e até à sua morte em 1999, Amália foi um ícone da cultura nacional e que levou o bom nome do país, através do Fado, aos quatro cantos do mundo.

O Fado depois do 25 de abril de 1974

A ditadura salazarista e a sua censura colocaram o Fado numa posição não merecedora que foi restaurada com a implementação do Estado democrático em 1974. A partir dessa altura, o Fado deixa de ser motivo de debate, pois torna-se consensual a sua importância e significado. 

Considerado património musical português, começa a notar-se uma crescente tendência de atenção da indústria discográfica a este estilo e o aparecimento de uma nova geração de músicos: uns fadistas, outros imensamente influenciados pelo Fado, como por exemplo, António Variações ou José Mário Branco.

Desde então não pararam de surgir grandes nomes do contexto atual do Fado, como Camané, Mariza, Gisela João ou Raquel Tavares, entre muitos, muitos, outros igualmente talentosos e excelentes embaixadores desta música.

flickr.com/Pascal Müller

A história do Fado é imensa e grandiosa. Aqui salientamos apenas alguns momentos importantes e marcantes, mas há muitos mais, pois para algo tão complexo e sensível não bastam estas linhas.

Na Lisboa Secreta, e como portugueses, adoramos o Fado. O Fado é nosso. O Fado é de todos os portugueses. 

Aqui em Lisboa temos o Museu do Fado, que conta a sua história e tantos outros detalhes maravilhosos deste nosso património.

Foto de capa: flickr.com/Daniel Arrhakis